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O pacto civilizatório de Lula e Alckmin

O pacto civilizatório de Lula e Alckmin

Não estamos em tempos de normalidade democrática. Lula e Alckmin representam a união contra a barbárie

Muitos setores de esquerda têm criticado a aliança entre Lula e Geraldo Alckmin para a disputa presidencial deste ano. Essas manifestações são absolutamente respeitáveis, especialmente quando fundadas na ausência de um pacto programático mais profundo com as forças políticas que o ex-governador de São Paulo representa. A união de que necessitamos agora é, porém, em favor da democracia, dos direitos humanos e da vigência da Constituição de 1988. Não estamos em época de normalidade democrática. O bolsonarismo chegou ao poder por meio de um processo fraudulento, conduzido por um juiz que atuou mais como militante político do que propriamente como magistrado. Esse processo penal de exceção foi utilizado para impedir Lula de ser candidato e vulnerou a nossa democracia.

Dessa maneira, é urgente que se construa uma frente ampla contra novas formas de autoritarismo no Brasil. Tais práticas caracterizam não apenas o método abraçado pelo bolsonarismo para se alçar ao poder, mas também têm guiado o comportamento do próprio Bolsonaro. Não foi por falta de vontade que ele não se tornou um ditador, e sim por não ter conseguido estabelecer no País um regime ditatorial. A todo instante o atual presidente buscou produzir um discurso duplo de se afirmar como poder e paralelamente colocar-se como antissistema da República, vituperando outras esferas do Estado, principalmente o Supremo Tribunal Federal.

Durante a pandemia, Bolsonaro agiu de forma extremamente negativa e contrária à ciência, o que acabou por levar centenas de milhares de pessoas à morte. Apresentou ainda uma reincidente postura contra os direitos de liberdade e os valores e princípios da democracia constitucional. A reeleição de Bolsonaro, como resumiu Marcelo Freixo, significa a negação da vigência da Constituição de 1988. É isso o que está em jogo na próxima eleição.

O bolsonarismo, a exemplo de outros movimentos de extrema-direita ao redor do mundo, se estabelece como uma alternativa ao pacto civilizatório, ao ­common ground de valores que constroem a democracia, ao solo comum dos que a habitam. Seus adeptos são contra a democracia e a civilização. Ao enfrentá-los, não empreendemos uma disputa natural no bojo civilizatório. Trata-se de uma luta da civilização contra a barbárie. E, como tal, não há outro comportamento possível aos democratas senão o de se juntarem numa frente ampla contra essa manifestação extremista de direita, esse populismo que defende a face mais violenta do sistema.

Essa frente democrática, por sinal, é liderada por um representante da classe trabalhadora, na figura de Lula. Como candidato a vice-presidente, Alckmin personifica forças de centro, mas que têm pacto com a democracia. Assim, a chapa Lula-Alckmin significa a possibilidade de combate amplo às novas vertentes do autoritarismo que tomam o Brasil e também se alastram pelo mundo.

Cabe salientar que vivemos uma crise social sem igual no período pós-redemocratização. O País foi inserido em um contexto de degradação social pelas mãos dos governos Temer e principalmente Bolsonaro. Nem na famigerada década de 1980 víamos tanta pobreza pelas ruas. Como bem determina a Constituição de 1988, o enfrentamento da miséria e a redução das desigualdades sociais são valores fundamentais da nossa República e da nossa ordem econômica.

Certamente o combate à miséria e à pobreza também constitui um eixo de consenso no ambiente da chapa dos que pleiteiam a continuidade democrática. O papel dessa frente é a reconstrução do Estado e da sociabilidade brasileira, que infelizmente regrediu nos últimos anos. Esse resgate é a prioridade deste momento. Não navegamos mais nas mesmas águas de 2002, em que a disputa se dava no âmbito da civilização e do poder na democracia. Agora urge retirar o País do cenário de degradação em que naufraga.

Não devemos encarar essa eleição como um acontecimento rotineiro, mas como a mais importante desde a redemocratização do Brasil porque significa o embate da democracia contra as novas formas de autoritarismo, da civilização contra a barbárie, da Constituição e seus direitos contra formas autocráticas de gestão do Estado e da vida social. Trata-se da luta pela manutenção de valores e princípios arduamente conquistados com o fim da ditadura militar, e, dentro desse propósito, é muito bem-vinda a aliança entre Lula e Alckmin. Tomara que saia vitoriosa nas urnas.

Artigo publicado originalmente na Carta Capital.

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