Trajetória do presidente desafia preconceitos e mantém força política após décadas de embates e perseguições
Existe um fenômeno chamado Lula que vai muito além da análise política e eleitoral. A história desse nordestino pobre –que fugiu da fome num caminhão com a mãe, Dona Lindu, e uma penca de irmãos, não conseguiu fazer faculdade, não mudou seu estilo de ver a vida e não se rendeu às benesses da triste elite brasileira– é de uma profundidade e complexidade intensas.
É importante registrar que Lula é o brasileiro com o maior número de títulos de doutor honoris causa: já são 42. E o que mais criou e inaugurou universidades federais: 18 universidades e dezenas de campi universitários. Ainda agora, propôs a criação de duas novas universidades federais: uma voltada aos indígenas e outra voltada à formação esportiva. Mesmo hoje, depois de 3 mandatos presidenciais e caminhando para o 4º mandato no 1º turno, alguns grupos ainda alimentam raiva, até ódio, contra a história de vida do presidente.
Fazer parte de alguns chats de WhatsApp com pessoas de direita é um exercício permanente de aprendizado e paciência. Alguns grupos corroem-se, mordem-se, falam um monte de asneira e negam a realidade. Tudo para destilar preconceito sem analisar os fatos e as inegáveis conquistas dos governos Lula. Virou um Fla X Flu em que o juiz e o VAR estão sempre de costas para a realidade.
Enquanto isso, o mundo se rende ao grande estadista e presta sempre as devidas homenagens ao homem que disse a Trump que “comeu pão pela 1ª vez aos 7 anos”. Falou como quem conta uma verdade simples, sem espetacularizar nem fazer drama. Apenas narrando a vida como ela é.
É assim que Lula enfrenta toda a sorte de obstáculos e dificuldades. Para quem passou fome e morou num quarto no fundo de um bar, com sua família, com banheiro comum com os clientes, enfrentar a raiva e o desdém da burguesia frustrada e invejosa é apenas um detalhe que o ajuda a seguir de cabeça erguida.
Um fato chama muito a atenção: o tratamento que a grande mídia dá aos escândalos do dia. Na Lava Jato, todos se lembram da propaganda –sim, propaganda violenta– contra o Lula e contra o PT. São inesquecíveis as imagens de dutos de esgoto jorrando rios de dinheiro, todos os dias, no horário nobre.
Ali, os que se julgavam donos do país, senhores da verdade e tutores da vontade popular acharam que liquidariam Lula. Posteriormente, ele foi preso ilegalmente e imoralmente por um bando que ainda será responsabilizado pelos inúmeros crimes cometidos. E não sou eu que digo mais; disse isso desde 2017, Brasil afora. Agora, é uma decisão do Conselho Nacional de Justiça que segue sem as devidas providências do Ministério Público Federal.
Mesmo com 580 dias de prisão injusta, Lula não se curvou. Não se humilhou. Não cedeu. Não fez acordo. Diferentemente disso, disse inúmeras vezes que enfrentaria o processo confiando na Justiça. E que os representantes da elite que o queriam fora do poder teriam de ser responsabilizados pelos excessos e crimes.
No dia em que ganhamos as ADCs que resultaram na liberdade de Lula –a 1ª delas, nº 43, de minha autoria–, disse num jantar de comemoração: “Esta liberdade vai devolver a esperança ao povo brasileiro. O Lula vai voltar com mais força e presidir o Brasil de novo. Foram 580 dias de campanha silenciosa do Lula; o povo não suporta perseguição nem compactua com injustiças”. E foi o que aconteceu.
Neste momento, o país acompanha, perplexo, o desdobramento da relação entre o candidato bolsonarista e o ex-banqueiro Vorcaro. Sem fazer nenhum prejulgamento, uma pergunta que não quer calar: se o pedido de milhões de reais feito por Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro, 1 dia antes da prisão, tivesse sido feito pelo presidente Lula, o que aconteceria?
Nem precisaria ser uma súplica, feita de maneira humilhante e que demonstra muita intimidade, de um repasse de R$ 134 milhões; bastaria um pedido qualquer de ajuda. Até um pedido insistente de um encontro para jantar. Nem precisaria ser uma espécie de intimação para pagar além dos R$ 61 milhões que, ao que parece, já foram pagos. Não precisava ser sexo explícito; bastava um clima de romance. Lula seria sacrificado em praça pública.
Esses desqualificados ousam criticar uma audiência formal em que o presidente da República recebeu, a pedido de um ex-ministro, o então banqueiro, na qual deixou claro que não haveria perseguição nem privilégio. Como deve ser em uma República. Mas querer que a direita, sedenta por poder e dinheiro, saiba o que é sentimento republicano é pedir demais. Na realidade, pedir a esse grupo extremista qualquer linha de raciocínio é, sem dúvida, chover no molhado.
O que ainda me causa perplexidade é constatar que grande parte da elite continua agarrada a um projeto golpista, sem qualquer proposta para o país. Causa espécie acompanhar uma parcela significativa de empresários, políticos e cidadãos ditos “de bem” insistirem na direita que parece estar à deriva, mas ainda recolhendo benesses e vantagens.
É claro que, racionalmente, o ideal seria torcer para que a candidatura de Flávio Bolsonaro continue. A vitória de Lula no 1º turno evitaria mais desgastes à ainda frágil democracia brasileira. Mas seria preciso esquecer a frase atribuída a Napoleão: “Nunca interrompa um inimigo quando ele estiver no processo de autodestruição”.
Imagem: Ricardo Stuckert/PR




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