Diego Guo, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, obra do artista brasileiro permite à China enxergar um Brasil para além do futebol, do carnaval e dos recursos naturais
A presença de Candido Portinari no Museu Nacional da China, em Pequim, vai além de uma iniciativa cultural. Para Guo Cunhai, pesquisador sênior e diretor do Departamento de Estudos Sociais e Culturais do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, a escolha do artista brasileiro expressa uma tentativa de aprofundar o diálogo entre Brasil e China a partir das experiências sociais, históricas e civilizacionais dos dois países.Play Video
Em entrevista concedida a Victoria Damasceno, Guo afirmou que uma exposição dessa dimensão não deve ser vista como decisão unilateral de um lado, mas como resultado de “consulta e aceitação mútua entre diplomacia cultural, cooperação museológica e construção de imagem nacional”. Segundo ele, o Brasil teve maior iniciativa na escolha, por se tratar de um dos nomes mais representativos da arte moderna brasileira, mas a aceitação chinesa mostra que Pequim reconhece Portinari como uma porta de entrada importante para compreender o Brasil.
Um Brasil além do exotismo
Para o pesquisador chinês, Portinari não oferece ao público da China apenas uma representação de cores, paisagens ou exotismo tropical. Sua obra apresenta trabalhadores, camponeses, migrantes, pobres e pessoas comuns — sujeitos centrais da formação do Brasil moderno.
“Portinari oferece precisamente essa possibilidade. Ele permite ao público chinês ver um Brasil que não é reduzido ao turismo, ao futebol, ao carnaval ou à imagem tropical, mas um país moldado pela terra, pelo trabalho, pela pobreza, pela migração, pela dignidade e pela busca da modernização”, afirmou Guo.
Na avaliação do pesquisador, esse aspecto dialoga com narrativas chinesas de longo prazo sobre povo, trabalho, desenvolvimento e modernização. A exposição, portanto, não se limita à celebração da amizade bilateral. Ela projeta uma imagem do Brasil como grande país do Sul Global, marcado por desigualdades, conflitos sociais e pela busca de um caminho próprio de desenvolvimento.
A familiaridade chinesa com o povo de Portinari
Guo também comparou Portinari a artistas chineses do século 20, como Jiang Zhaohe e Luo Zhongli, que colocaram camponeses, refugiados e trabalhadores rurais no centro de suas obras. Para ele, há uma gramática visual comum entre essas tradições.
“Há de fato uma tradição na arte moderna chinesa que toma pessoas comuns, camponeses, trabalhadores e sofredores como sujeitos centrais”, disse. Segundo Guo, essas imagens não transformam o povo em simples símbolo político abstrato, mas o apresentam como “portador e criador da história”.
Ele ressaltou, no entanto, que há diferenças importantes. Enquanto o realismo revolucionário e socialista chinês frequentemente enfatiza organização, coletividade e futuro, Portinari revela de forma mais intensa a desigualdade, a mistura racial, a pobreza rural e o trauma da migração no Brasil. “Suas imagens são mais melancólicas, mais pesadas e mais socialmente críticas”, afirmou.
A imagem de Brasil projetada em Pequim
Ao escolher Portinari para representar o país no Museu Nacional da China, o Brasil transmite uma mensagem mais densa ao público chinês. Não se trata de vender uma imagem turística ou publicitária, mas de apresentar um país com memória social e identidade popular.
“É um Brasil com memória social, subjetividade popular e a dor da modernização”, afirmou Guo. Para ele, essa escolha permite que o público chinês compreenda o Brasil dentro de uma experiência compartilhada pelo Sul Global: pobreza, desenvolvimento desigual, questão agrária, industrialização difícil e dignidade do trabalho.
O pesquisador afirmou que uma relação madura entre grandes países não pode se limitar a mercados, recursos naturais, comércio ou tecnologia. Ela precisa envolver também o conhecimento da sociedade, da história e da estrutura espiritual de cada país.
O comunista Portinari e a diplomacia cultural
A trajetória política de Portinari também foi abordada na entrevista. O artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro, disputou eleições pelo PCB e foi levado ao exílio após a proibição do partido. Para Guo, essa biografia ajuda o público chinês a compreender sua obra, embora a diplomacia cultural costume manter esse aspecto em segundo plano.
“Sem entender a posição política de Portinari, sua preocupação social e seu contexto intelectual de esquerda, é difícil compreender verdadeiramente por que ele retratou repetidamente trabalhadores, camponeses, pobres e grupos oprimidos”, afirmou.
Guo ponderou, porém, que Portinari não deve ser reduzido à sua militância comunista. Segundo ele, o artista foi antes de tudo um grande criador nacional brasileiro e um representante central do modernismo no país. Sua biografia política ajuda a explicar sua preocupação social, mas não substitui seu valor artístico.
Prosperidade comum diante da desigualdade
A entrevista também tratou de uma tensão central: a narrativa oficial chinesa enquadra a exposição nos conceitos de “prosperidade comum” e desenvolvimento do Sul Global, enquanto a obra de Portinari retrata fome, desigualdade estrutural, êxodo rural e sofrimento.
Guo reconheceu a tensão, mas afirmou que ela não representa necessariamente uma contradição. Para ele, a prosperidade comum não deve ser entendida como descrição de uma realidade já alcançada, mas como resposta ao problema da desigualdade.
“O que as obras de Portinari apresentam não é o resultado da ‘prosperidade comum’, mas a razão histórica pela qual um caminho de desenvolvimento mais equitativo e inclusivo é necessário”, afirmou.
Segundo o pesquisador, Portinari lembra que desenvolvimento não é apenas crescimento do PIB. É também uma questão de seres humanos, terra, trabalho, classe, relações entre campo e cidade e dignidade social.
Um diálogo intelectual entre Brasil e China
Para Guo, a exposição terá maior força se o público chinês não a enxergar apenas como símbolo de amizade entre os dois países, mas como convite a uma reflexão mais profunda sobre modernização, desigualdade e justiça social.
“O melhor caminho não é transformar as imagens de sofrimento de Portinari em simples otimismo desenvolvimentista, mas reconhecer as perguntas que essas obras levantam e colocá-las dentro das questões de desenvolvimento que China e Brasil enfrentam”, afirmou.
Nesse sentido, Portinari chega à China não apenas como um mestre da pintura brasileira, mas como intérprete das dores e da dignidade do povo. Sua obra oferece a Pequim uma imagem do Brasil que não se limita ao comércio, ao agronegócio, à energia ou à tecnologia. Mostra um país construído por trabalhadores, camponeses, migrantes, negros, mestiços e pobres — sujeitos que, na visão do pesquisador chinês, devem estar no centro de qualquer diálogo verdadeiro entre civilizações do Sul Global.
Autor: Redação Brasil 247
Publicado no Brasil247
Crédito imagem: Brasil 247 / Dall-E




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