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É preciso repensar o papel das Forças Armadas

É preciso repensar o papel das Forças Armadas

Participação minimamente exitosa nas guerras contemporâneas exige alto investimento e profissionalização
A natureza dos conflitos mudou: o que vemos são embates híbridos e assimétricos, travados por intermediários

O mundo viveu desde o final da Segunda Guerra Mundial num ambiente de relativa paz, onde mesmo os confrontos bélicos regionais, não obstante cruentos, estavam confinados às zonas de influência das duas grandes potências então dominantes, os Estados Unidos e a União Soviética, mercê do chamado “equilíbrio do terror”, assegurado pelo monopólio das armas nucleares que ambas detinham.

Ao par disso, os países aliados, vencedores daquele temível confronto, desenvolveram um sofisticado sistema de negociação multilateral para dirimir disputas políticas e econômicas entre as nações, centrado em diversos organismos internacionais, com destaque para a ONU.

Mas, desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, que colocou fim à Guerra Fria, travada entre as duas potências hegemônicas, não se assistia a um quadro tão conturbado e nebuloso como o da atualidade, sobretudo em razão do surgimento de novas potências, econômica e militarmente emergentes, as quais passaram a desafiar a antiga ordem global.

A irrupção de inúmeros conflitos bélicos ao redor do planeta, muitos deles assumindo a forma de conquistas territoriais pela força ou derrubada de governos, proscritas pelo direito internacional, passou a elevar exponencialmente o risco de uma nova conflagração universal, com o potencial de destruir toda a humanidade, dada a proliferação de artefatos atômicos e a aceleração da corrida armamentista.

Some-se a isso a multiplicação das crises financeiras, a expansão das migrações, a disseminação do terrorismo, a ampliação da criminalidade transnacional e o agravamento do aquecimento climático, em grande parte decorrentes da anomia generalizada causada pela globalização, além do enfraquecimento das democracias liberais, capturadas pelo autoritarismo, nacionalismo, protecionismo e xenofobismo.

Um dos principais pontos a considerar nesse contexto é a mudança da natureza dos conflitos atuais. As guerras clássicas entre Estados praticamente deixaram de existir, sendo substituídas por guerras híbridas e embates assimétricos, muitas vezes travados por intermediários ou com a participação de terceiros.

O avanço tecnológico, ademais, alterou profundamente a atividade militar. O emprego de satélites orbitais, drones teleguiados, armamentos autônomos, inteligência artificial e ataques cibernéticos tornou-se decisivo na guerra atual.

A superioridade estratégica já não depende apenas da quantidade de soldados ou de armamentos convencionais que um país possa ter, mas sobretudo da capacidade de dominar redes de comunicação, sistemas de inteligência e protocolos avançados.

As batalhas de hoje não se travam mais exclusivamente em terra, ar e mar, tendo migrado crescentemente para o espaço e o ciberespaço, campos cujo domínio demanda o desenvolvimento de novas doutrinas e uma formação altamente especializada dos combatentes.

Em países menos desenvolvidos econômica e tecnologicamente, as forças armadas, por serem instituições muito bem organizadas e estruturadas, com frequência são chamadas a desempenhar atribuições próprias da administração pública, em prejuízo de sua tradicional função de defesa do território e da soberania.

Gasto militar global em 2025

Ocorre que uma participação minimamente exitosa nas guerras contemporâneas não só exige investimentos de vulto, como também demanda dos integrantes das Forças Armadas uma altíssima profissionalização, permanentemente focada em tecnologias de ponta, ao custo, quem sabe, de abrirem mão da conscrição obrigatória de civis para o serviço militar.

Autor: Ricardo Lewandowski

Publicado no Folha de São Paulo.

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