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MEUS INTERESSES? DEIXE-OS PRA LÁ

MEUS INTERESSES? DEIXE-OS PRA LÁ

Aviso aos candidatos à presidência e demais cargos públicos. Sou uma mulher branca e heterossexual. Minha família pagou meu colégio e a faculdade. Na juventude, pude me exercitar, estudar idiomas, viajar. Fui criada em meio a livros, filmes e teatro. Nenhum homem jamais levantou a mão para mim.

Tenho plano de saúde e previdência privada. Trabalho há 45 anos. Minhas duas filhas estão criadas. Vivo no meu próprio país, nunca tive que abandoná-lo para fugir da fome ou de uma guerra. Se eu me apertar, aciono minha rede de contatos. Deveria votar em quem defende os meus interesses? Os meus???

Meus interesses foram atendidos desde o dia em que nasci — aliás, antes mesmo de eu nascer, pois minha mãe teve condições de realizar os exames de pré-natal.

Preciso do governo infinitamente menos do que aqueles que ainda lutam por seus direitos básicos. Tenho 65 anos de privilégios. Voto por quem tem 3 anos e é cuidado por um irmãozinho de 9, enquanto a mãe realiza serviços domésticos na casa dos outros — aos sábados, inclusive. Voto por quem tem 12 e teve que sair da escola para ajudar na renda familiar. Voto por quem tem 24 e ainda não conseguiu o primeiro emprego. Voto por quem mora em encostas, por quem sofre violência, por quem mal sabe escrever.

Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim.

Voto em quem pode impedir a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade de indivíduos que nunca conceberam um projeto social de inclusão e negam evidências científicas. Voto em qualquer um que, em vez de ser um entreguista lambe-botas, defende nossa independência e democracia, em vez de tratar o Brasil como sucursal dos Estados Unidos. Obviamente, quem assumir em janeiro vai cometer erros e será cobrado, como acontece em todas as gestões de todas as nações. Mas não contem comigo para dar poder a quem nunca demonstrou compaixão por homens e mulheres que dependem de um governo consciente. O mercado importa, o agro importa, a economia importa, o empresariado importa, desde que beneficiem também a população, e não apenas suas bolhas.

Minhas angústias emocionais, conhecidas como white people problems, atenuo com amigos, leitura e terapia, sob um teto sólido e com a certeza de que almoçarei amanhã. Desejo, claro, ver meus impostos bem-investidos, a valorização da cultura, o meio ambiente preservado e a corrupção combatida, mas sem esquecer o principal: nunca iremos decolar enquanto o Brasil for um dos países mais desiguais do mundo. É o nosso problema maior, que origina tantos outros. Portanto, nobres candidatos, obrigada pela consideração, mas deixem para lá meus interesses. Vocês têm mais com o que se preocupar.

“PRECISO DO GOVERNO INFINITAMENTE MENOS DO QUE AQUELES QUE AINDA LUTAM POR SEUS DIREITOS BÁSICOS”

por Martha Medeiros, na Zero Hora

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8 Comments

  • Corintha Medeiros
    11/09/2026, 16:00

    Uma das melhores matérias que li nos últimos 10 anos!°°

    Responder
  • Cloris carvalho matsushita
    14/09/2026, 13:16

    Puxa, igualzinho ao que penso!!!! Uma amiga enviou observando que sou eu!!!😂😂feliz por conseguir passar o que penso!!!

    Responder
  • Rosinete Costa Fernandes Cardoso
    22/09/2026, 18:39

    Parabéns!!! Seu texto é uma denúncia ao descaso pelo outro, ao egoísmo assassino e, melhor que isso, é de esperança.
    Um abraço afetuoso de uma catarinense.

    Responder
  • Harley Rodrigues Wanderley
    23/09/2026, 11:32

    Disse tudo, precisamos espalhar!

    Responder
  • Andy
    26/09/2026, 08:05

    M.M, faz muito tempo que não leio algo tão importante com um sentido de responsabilidade pelo outro, por aquele que está a margem dos privilégios sociais por falta de opção. A pobreza ou a marginalidade social não é uma opção no nosso país. Também me sinto assim, uma privilegiada pelo sistema, não porque tenha me dado algo mas por usufruir de comodidades me presenteadas por meus pais que lutaram muito para que eu pudesse usufrui-las.
    Seu texto é um choque de realidade em todos que estão na sua zona de conforto fingindo não se importar talvez por descaso ou talvez por cansaço e falta-lles Coragem para mudar. Tem um ditado antigo que diz: " não ponha palavras na minha boca", eu te digo faço de suas palavras as minhas e as coloco sim, em minha boca. CORAGEM requer AÇÃO.
    Um abraço Andréa AD. 26/09/2026.

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