728 x 90

Inteligência artificial: e o menino nunca mais foi visto no aeroporto

Inteligência artificial: e o menino nunca mais foi visto no aeroporto

Antes de tudo: enquanto o Facebook levou dez meses para alcançar um milhão de usuários, o ChatGPT levou apenas cinco dias.

Dito isso, o jornal espanhol El País fez interessante editorial (edição de 29/1/2023) sobre a coqueluche do momento: a tal Inteligência Artificial ChatGPT.

Para quem ainda não sabe, o modelo de linguagem ChatGPT, baseado no aprendizado de máquinas e redes neurais profundas, trouxe a inteligência artificial para o debate cotidiano.

Com o tempo, cada vez mais os sistemas IA farão interfaces com nossos dispositivos e se tornarão uma espécie de oráculos de nossas atividades profissionais.

É por isso que o jornal chama a atenção: há riscos nisso e devemos tomar medidas para mitigá-los antes que eles se tornem uma unanimidade e/ou uma IADependência (a palavra é minha).

1. Os prós: sua capacidade de analisar grandes quantidades de dados e fazer previsões oferece uma assistência valiosa na previsão de desastres, diagnóstico de doenças, gerenciamento de recursos a longo prazo e eficiência no transporte. Suas habilidades já aliviam muitos meios de comunicação de acompanhar as flutuações da bolsa de valores, transmitir o futebol de ligas menores ou prever o tempo. E servem à educação, oferecendo a possibilidade de reforço personalizado em disciplinas especializadas, desde a matemática até o latim.

2. Contra: o fato é que não podemos automatizar essas funções sem mitigar as prováveis desigualdades que cresceriam exponencialmente, por exemplo, entre aqueles que mantêm acesso cada vez mais privilegiado a médicos, professores, secretários e jornalistas. Isto é: uma IA excludente.

3. Efeitos colaterais: a automação de serviços oferece vantagens econômicas às empresas, que podem estar abertas 24 horas por dia, sete dias por semana, sem pagar salários ou previdência social. Ao mesmo tempo, porém, constitui um risco para a privacidade e o cuidado do usuário, paciente e cidadão.

4. O ponto fulcral: é imperativo estabelecer diretrizes e regulamentos claros que garantam um princípio de transparência e responsabilidade no desenvolvimento e implementação de modelos automatizados, particularmente em empréstimos, saúde, contratação ou justiça criminal.

5. Problemas éticos: a diretriz ética inegociável: nenhuma IA pode nos substituir ou tomar decisões por nós; apenas nos ajudar a decidir, diagnosticar, pensar melhor. E é claro que pode. Engana-se quem pensa ou diz que sou contra a tecnologia. Pelo contrário. Minha preocupação é com a dosagem do remédio que pode se tornar veneno.

6. Dilemas e perplexidades: como evitar assimetrias que surgirão entre aqueles com acesso privilegiado aos dados e a gestão de plataformas digitais e nossos interesses, necessidades e diretrizes regulatórias?

Além disso, altos custos ambientais. Modelos de treinamento como o GPT-3 exigem grandes quantidades de solo, minerais, fluidos, energia e capacidade computacional, e geram quantidades industriais de resíduos e gases de efeito estufa.

E como se dá a explanação e a verificação do modo como essas plataformas são estruturadas e organizadas? Isso é importante. Ou não é?

7. Conselho: devemos colocar nossa casa em ordem antes de deixá-la nas mãos da inteligência artificial.

8. Explicando o título da coluna: embarcávamos para a Europa — isso há uns cinco anos — e na hora do check in o menino da companhia disse “façam no totem”. O jurássico aqui disse que gostaria que ele fizesse para nós.

Ele explicou empolgado que o totem blá, blá e blá. Rosane disse: “esse totem vai tirar seu emprego”. Ele disse “não, vai melhorar o atendimento” e blá e mais outro bla.

Nunca mais o vimos. Descobri que foi demitido.

Alguém dirá: Lenio está preocupado com os fabricantes de vela no advento da luz elétrica. Ou está preocupado com o emprego dos cocheiros em face do invento do automóvel… Já me disseram isso. Muito engraçado. Pândegos e galhofeiros.

Primeiro, são coisas diferentes. Segundo, a precarização do trabalho é uma realidade. Por isso o oportuno editorial de El País.

Vejam as agências bancárias, reduzidas a algumas mesas. Liguem para o banco. Atenderá um robô. Agora sofisticaram: há um whatsapp robô para sacanear. Qual é o assunto? Você diz “nenhum desses”. Acabou a relação com o robô.

Ligue para o SAC de empresas. Ligue para as Lojas Americanas… Reclame do Uber. Ligue para o Uber. Ah, não tem telefone? Pois é. Compre uma passagem aérea ligando para a companhia. Aliás, ligue para a companhia…

E no direito? Bom, com o salário que recebem as carreiras no Brasil… querem, ainda assim, terceirizar para robôs. É o que se diz. Há uma paixão por metaverso. Dias desses até audiência por metaverso foi feita. Desculpem: já está acontecendo. Há robôs que fulminam recursos e julgam causas fiscais e quejandos.

E volto à minha pergunta, até hoje não respondida pelos defensores da nova moda: quem programa o robô? “Ah, mas nas demandas repetitivas”… e é um robô que vai nos oferecer o conceito de um precedente, por exemplo? Algo que a dogmática e os tribunais, e digo com toda lhaneza, até hoje não fizeram? Hum, hum.

O ChatGPT já faz textos melhores que a ampla maioria — mas ampla, mesmo — dos formados em direito. É provável, visto o nível do ensino jurídico. Então, por que somos capazes de construir máquinas que fazem as coisas melhores que nós? Não, não respondam.

Ou respondam. Para si mesmos. Não é um tanto assustador?

Encontrei uma senhora que estuda direito no sétimo semestre em uma faculdade por aí. Ela não junta lé com cré. Não conhece nenhum autor, a não ser os de direito desenhado e correlatos. Claro: o ChatGPT dá de dez nesse universo. O ChatGPT pode até resolver o problema dessa senhora.

Jornal do fim de semana entrevistou uma máquina. Então. Quando ligo o rádio e a TV ou navego pelas redes, fico pensando o campo fértil de mercado que terá o ChatGPT. Vai vender mais que farmácia.

E isso faz a gente entrar em pânico. Em face do paradoxo: se vencermos construindo essas máquinas, mostramos, ao mesmo tempo, nosso profundo fracasso. Ao vencer, perdemos. A vitória é pírrica. Como chegamos a um ponto tão baixo na organização de nossas vidas sociais?

O meu ponto fundamental, insistindo novamente no óbvio: não sou contra a tecnologia (quem seria?). A questão fulcral eu resumo em uma palavra: accountability. Um dever de prestar explicações. E esse é um dever público.

Abrir mão disso é abrir mão exatamente de todos os princípios que levam as pessoas a pedirem tecnologia…! Autonomia, racionalidade, inteligência.

O mundo precisa dos chatos para colocar um freio na empolgação. Cinco dias e o Robô já atingiu um milhão de usuários?

Só peço um pouquinho de prudência na hora de fazer as coisas. Só isso.

Atenção: se os trabalhos escolares e os textos jornalísticos tiverem uma repentina melhora, fujamos para as montanhas. O robô entrou em campo. Ele venceu e nós fracassamos. Paradoxalmente.

E onde estará o menino do aeroporto?

Artigo publicado originalmente no Consultor Jurídico.

Compartilhe
Grupo Prerrô
ADMINISTRATOR
Perfil

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *

Mais do Prerrô

Compartilhe