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Juliana, espancada naquele elevador, precisa marcar nossa retina para sempre

Juliana, espancada naquele elevador, precisa marcar nossa retina para sempre

Agredida com 61 socos em 35 segundos, vítima dá nome, rosto, cor, voz e história à alarmante guerra em curso contra milhares de brasileiras

Por Manoela Miklos, Silvia Chakian e Samira Bueno

cena é insuportável de se ver: dentro do elevador de um prédio residencial em Natal, por intermináveis 35 segundos, Juliana Garcia dos Santos, 35, é brutalmente espancada pelo namorado, que desfere 61 socos contra o seu rosto, desfigurando-a. O agressor tem nome: Igor Eduardo Pereira Cabral, 29. O pior? O caso impressiona não pelo que tem de extraordinário. As imagens impressionam pelo que têm de comum.

De acordo com o recém-lançado Anuário Brasileiro de Segurança Pública, regularmente publicado pelo Fórum de Segurança Pública, o Brasil registrou em 2024 o maior número de feminicídios da história, com 1.492 vítimas. O número de tentativas de feminicídio também bateu recorde e, com um crescimento de 19%, resultou em 3.870 mulheres vítimas. Assim como Juliana, que escapou por pouco de ser morta graças a mobilização do porteiro e de alguns moradores, que rapidamente intervieram.

O perfil das vítimas segue o mesmo: 63% são mulheres negras e cerca de 70% têm entre 18 e 44 anos —ou seja, mulheres em idade reprodutiva são as mais vulneráveis. A maioria dos crimes ocorre dentro de casa (64%), e 97% dos agressores são homens. Em 8 a cada 10 casos, o feminicídio é cometido por companheiros ou ex-companheiros da vítima.

E é preciso lembrar: o feminicídio não é um incidente isolado, é a misoginia expressa em sua forma mais brutal e definitiva. Como diz a escritora canadense Margaret Atwood, os homens temem que as mulheres riam deles. As mulheres temem que os homens as matem.

Temos marcos legais que são referência na prevenção e enfrentamento da violência de gênero. A mais célebre das leis que versam sobre violência de gênero no país, a Lei Maria da Penha, completou 19 anos na quinta-feira (7) e merece o prestígio que tem. Mas abundam desafios de implementação que não permitem que o Estado, em boa parte do país, chegue até as brasileiras em risco a tempo e as ajude a romper o ciclo de violência em que estão inseridas.

O alto número de medidas protetivas de urgência concedidas e de medidas descumpridas pelo agressor comprovam essa avaliação. Em 2024, tivemos 6,6% mais medidas concedidas, mas as violações por parte dos agressores cresceram ainda mais —10,8%.

Outros dados ajudam a compor esse cenário alarmante. Com dois acionamentos por minuto, o 190, número de emergência das Polícias Militares, revela um quadro de mais de 1 milhão de atendimentos em decorrência de violência doméstica: o retrato de um país verdadeiramente em guerra contra as brasileiras.

Em suma, o Brasil tem enorme dificuldade em fazer segurança pública da porta para fora, mas a dificuldade é ainda maior quando se trata de fazer política pública da porta para dentro. Vivemos num país onde a misoginia impera, e que reage brutalmente à busca por emancipação das mulheres. Apesar dos avanços legislativos, ainda estamos distantes de romper com as raízes culturais que naturalizam as desigualdades de gênero, o controle e o sentimento de posse masculino.

É por isso que casos como o de Juliana não surpreendem. Juliana é regra, não exceção.

Seu caso confere tangibilidade aos dados. Dá a eles nome, rosto, cor, voz e história. Desperta emoções que os dados, frios, não dão conta de trazer à tona. E, assim, contribui para a construção de uma realidade mais digna para as brasileiras. Afinal, nas palavras da feminista norte-americana Cheris Kramarae, precisamos defender a noção radical de que as mulheres são seres humanos.

Juliana, naquele elevador, precisa marcar nossa retina para sempre e nos lembrar cotidianamente que mulheres são seres humanos. Não é pedir muito, é?

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo.

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