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Malandro da antiga: o banzo da moder(os)idade

Malandro da antiga: o banzo da moder(os)idade

E malandro é malandro /
Mané é mané /
Podes crer que é /
Malandro é malandro /
E mané é mané /
Diz aí! /
Podes crer que é… / (…)

Malandro é o cara /
Que sabe das coisas /
Malandro é aquele /
Que sabe o que quer /
Malandro é o cara /
Que tá com dinheiro /
E não se compara /
Com um Zé Mané /
Malandro de fato /
É um cara maneiro /
Que não se amarra/
Em uma só mulher[1] /

Este artigo parte de uma releitura de um texto de Augusto Thompson[2] – manteve-se o título original, desconhecendo se publicado –, um dos mais festejados e premiados advogados criminais, criminologistas e penitenciaristas do Brasil da segunda metade do século passado até o seu precoce passamento em 2007, com 74 anos.

Magnânimo, Thompson nunca possuiu compromisso com os seus os erros e os seus equívocos interpretativos-doutrinários. Passados anos da primeira edição do “A questão penitenciária”[3] –leitura obrigatória para os estudiosos –, meditando acerca do que sustentara recuou na derradeira edição (5ª ed.) para (re)funda-lo com um capítulo-advertência intitulado “Irecuperação penitenciária”[4]. Note-se:  

“Hoje, depois de haver pesquisado o assunto nos Estados Unidos, onde o denominado  ‘tratamento em comunidade’ conta com mais de vinte anos de experiência, vejo a alternativa em tela como incapaz de oferecer outro resultado que o de um redondo fracasso. Consulte-se, a respeito (…). Quer dizer que não tem solução? No momento, esposo o ponto de vista de que a questão penitenciária não tem solução ‘em si’, porque não se trata de um problema ‘em si’, mas parte integrante de outro maior: a questão criminal, com referência ao qual não desfruta de qualquer autonomia. (…) a questão criminal não é mais do que qualquer elemento mais amplo: o das estruturas sócio-políticas-econômicas. Sem mexer nestas, coisa alguma vai alterar-se em sede criminal e, menos ainda, em sede penitenciária.[5]

Em 1979, ano em que ingressei na universidade gozei a sorte de tê-lo como professor de Direito Penal e Criminologia em curso então oferecido pela OAB/RJ e tive a ventura de cerca de três meses depois ser convidado para ser o seu monitor. Neste período nos aproximamos muito; como era exigente! De lá ao seu último dia de vida nos tornamos irmãos de alma e passamos a ter uma relação filial e profissional que transbordou para as nossas famílias; Thomson foi padrinho do meu casamento.

O por desenhado no artigo original parte foi fruto de inúmeras conversas que amiudamente mantínhamos e que varavam madrugada à dentro é tão forte e tão atual que me senti, em sua homenagem, compelido a torna-lo público sem alterar a sua espinha dorsal.

Foi no batuque e no ritmo dos sambas das escolas do Carnaval carioca de 2024, na Marquês de Sapucaí, quando a emoção toma conta d’alma ao ver a nossa gente sem qualquer distinção de cor, religião, pensamentos pessoais, clubísticos, políticos e pertencentes às mais díspares classes sociais unidas e embaralhadas como se fossem uma só pessoa, abraçando-se e beijando-se uns aos outros, inclusive os de outras agremiações, reverenciados por trajar as fantasias das suas escolas de coração, ao mesmo tempo em que sambam, cantam felizes e sorrindo como se não houvesse o amanhã que brotou a ideia de (re)ler Thompson quando cheguei em casa pela manhã feliz, mas saudoso por não mais poder ouvir Quinho – ele partiu dias antes do início das festas momescas –, o puxador de samba do meu Salgueiro não pode soltar o seu “grito de gerra”: “arrepia, Salgueiro / pimba, pimba / ai, que lindo, que lindo / e que bonitinho”, porque nos deixou dias antes do início do Carnaval. De sorte igual, lembrei de Dorival Caymmi no “Samba da minha terra[6]”:

O samba da minha terra deixa a gente mole /
Quando se canta todo mundo bole, quando se canta todo mundo bole /

Quem não gosta do samba bom sujeito não é /
Ou é ruim da cabeça ou doente do pé / (…)

Eu nasci com o samba e no samba me criei /
Do danado do samba nunca me separei / (…)

Virou modismo rememorar o malandro da antiga, o malandro da Lapa, havido como romântico e respeitador. Não assaltava e era simpático com todos do seu território; era um lorde. Topando com as pessoas chamava-os de “dotô” ou de “madama”, tirando o chapéu e curvando a sua espinha em sinal de respeito. Possuía um passo de dança harmonioso. Não bebia tampouco fumava. Era um sábio da “boa malandragem das antigas”.

Os velhos malandros não se diferem dos de hoje, sinalizava Thompson repercutindo o que se ouvia aqui e ali, porém, a sua percepção durante a elaboração do artigo originário caminhava-se de encontro à assertiva. O Estado desde sempre abandou os pretos, os pobres e os periféricos à própria sorte – exceto em períodos eleitorais, onde soltam verbo para imolar os incautos.  Caso eleitos, viram as costas para aquela gente desprovida de tudo. Como se o escrito por Thompson fosse em 2024, com mira certa disparou: o Estado sempre se portou de maneira desalmada com aquela grande parcela do povo – e ainda se porta!    

Thompson era soteropolitano, enraizado no Rio de Janeiro, carioca, pois, e advinha de família tradicional e experimentado pela vida, relatava episódios em que os malandros executavam os seus desafetos após disputas por suas prostitutas, sim, suas. Por que ver romantismo no malandro e não nos bandidos pertencentes às classes média, média-alta e alta? Por que apontar a diferença entre os de ontem e os de hoje? O antigo malandro limitava sua área de atuação à gentalha do seu próprio meio, enquanto os bandidos daquelas outras castas “roubavam – e seguem “roubando o povo, mas sem violência”; sucede que os “roubos” destes afetavam, como afetam, todo o povo brasileiro. Pois bem, insistia Thompson: onde a diferença?

Os velhos malandros tinham “ética”; só batiam em suas mulheres e nas suas amantes, longe das lentes da Lei Maria da Penha que não vigia à época.Que “ética é essa”, instigava Thompson? E respondia: dando-se de barato que bater na própria mulher seja ético os bandidos de extratos sociais elevados também não possuem? Ah, sim, os provectos malandros só vitimizavam as mulheres do lumpen, enquanto aqueloutros vitimizavam as senhoras e as senhoritas de seu meio social; deixando, aqui, de lado, os “roubos” que estes perpetravam contra o povo e seguem perpetrando. E Thompson acicatava mais: onde está esta tal de ética?

Outrora, havia pobreza com dignidade. Como assim? Desde quando a pobreza é digna? As pessoas humanas hão de ter o mesmo tratamento por parte do Estado e da sociedade; está na Constituição e nas leis de ontem e nas de hoje.

João Nogueira, no ponto, em “O vovô falou”, samba escrito por ocasião das “Diretas já”, possui razão tal qual fosse rascunhado em tempos modernos:

(…)

Vovô Sobral /
No alto dos seus 90 anos /
Reclama por direitos humanos /
Nas praças de cada capital /

Pagou geral /
Ele hoje é a razão que guia o povo /
Pois sendo o mais velho /
Hoje é o mais novo /
Herói da justiça nacional /

Como eu gosto do vovô Sobral /

Toda pobreza é indigna. Então, com os malandros existia pobreza com dignidade, enquanto com os “bandidos da alta” há pobreza sem dignidade?

Os pobres eram dignos porque aceitavam sua miséria – e se havia investidas de inconformismo, rompendo sob a forma de delinquência, as vítimas eram escolhidas entre eles mesmos, sem extrapolar para as de estratos superiores com receio do que contra eles poderia advir.

O malandro era individualista; o “bandido da alta” era, e é, astuto e não deixa rastro.Fácil de ter restrita sua atividade danosa aos próprios guetos. Associavam-se a ponto de formar comandos que agregam centenas de militantes, agora fica cada vez mais difícil impedir que invadam as “áreas nobres da cidade”, as quais passaram a provar a angustia da insegurança.

O malandro podia raramente conviver com a família.Com a família de quem? Com as de seu meio, bastava ver as multidões, repletas de mulheres e crianças, que desciam dos morros para prestigiar lhes os enterros ou, acaso presos, partiam para frente das delegacias exigindo fosse solto, ou lhe dava proteção quando a polícia invadia as favelas para capturá-lo.

Os malandros mal podiam conviver com a família, pois raramente delas se aproximavam para não torna-las vulneráveis. Enquanto os “bandidos da alta” conviviam com as suas famílias e nada os intimidava, tampouco tinham medo de expô-las, porque protegidos pelos poderosos, portanto, com elas privavam com a audácia do “homem de bem”.

Diz-se que o malandro era romântico, tinha ética, aturava a pobreza com dignidade, porque incomodava tão somente os seus irmãos deserdados. Com os superiores, evitava-os ou, pelo menos, respeitava-os, assumindo nos poucos e eventuais contatos os “compromissos” necessários para estabelecer “boas relações”, de sorte a se “contaminar” com prestígio e o poder que angariava. Protegendo o malandro, a “turma de cima” permitia-lhe aproveitar-se com mais competência da infelicidade da plebe rude. Em contrapartida, o malandro deixava em paz os bacanas, que podiam sossegadamente usufruir seus confortos. O bandido rompeu o acordo. Isso é que os de hoje estes têm por intolerável.

O quê fazer?, desafiava Thompson.

Mudar a injustiça de nossa estrutura social? “Sim, sim!”, concordam em coro os “sábios” das classes média, média-alta e alta, “porém a longo prazo”, aduzem em seguida. E o longo prazo é longo mesmo porque o primeiro nunca foi dado com a firmeza necessária para extirpar esta ignomínia da nossa terra. E enquanto esse enfrentamento for adiado pelo Estado o almejado futuro jamais chegará? Mas para tudo os “sábios” têm respostas na ponta da língua: “aumente-se a repressão, deixemos os esquadrões da morte – atualmente o crime organizado e as milícias – ir ceifando o mal pela raiz.

Para “distrair”, vai-se poetizando sobre um passado ditoso que teima em não voltar – voltar para quê? –, muito menos avançar. Ficar-se-á, imobilizado, com o verso de Caetano Veloso e Chico Buarque[7]?

Mesmo com toda a fama, com toda a Brahma /
Com toda a cama, com toda a lama /
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando /
A gente vai levando essa chama /

Mesmo com todo o emblema, todo o problema /
Todo o sistema, toda Ipanema /
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando /
A gente vai levando essa gema /

Mesmo com o nada feito, com a casa escura /
Com um nó no peito, com a cara dura /
Não tem mais jeito, a gente não tem cura /
Mesmo com o todavia, com todo dia /
Com todo ia, todo não ia /

A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando /
A gente vai levando essa guia /
Mesmo com todo rock, com todo pop /
Com todo estoque, com todo Ibope /

A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando /
A gente vai levando esse toque /
Mesmo com toda sanha, toda façanha /
Toda picanha, toda campanha /

A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando /
A gente vai levando essa manha /
Mesmo com toda estima, com toda esgrima /
Com todo clima, com tudo em cima /

A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando /
A gente vai levando essa rima /
Mesmo com toda cédula, com toda célula /
Com toda súmula, com toda sílaba /

A gente vai levando, a gente vai tocando /
A gente vai tomando, a gente vai dourando essa pílula /

Nada mudou, só piorou. E o que há ser feito? Ficar-se-á, tão só, com o poema de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar”[8]?: 

Eu já passei por quase tudo nessa vida /
Em matéria de guarida, espero ainda a minha vez /
Confesso que sou de origem pobre /
Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez /

Deixa a vida me levar (vida, leva eu) /
Deixa a vida me levar (vida, leva eu) /
Deixa a vida me levar (vida, leva eu) /
Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu /

Só posso levantar as mãos pro céu /
Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu /
Se não tenho tudo que preciso /
Com o que tenho, vivo /
De mansinho lá vou eu /

Não! não é se deve ficar inerte em face de situação que se delonga há décadas. Cazuza, no Brasil”[9], fez reclamo forte, porém, até hoje não lhe deram ouvidos:

Não me convidaram /
Pra esta festa pobre /
Que os homens armaram /
Pra me convencer /
A pagar sem ver /
Toda essa droga /
Que já vem malhada /
Antes de eu nascer /

(…)

Brasil /
Mostra tua cara /
Quero ver quem paga /
Pra gente ficar assim /
Brasil /
Qual é o teu negócio /
O nome do teu sócio /
Confia em mim /

Hoje é quarta-feira de Cinzas e o ano é 2024. O Carnaval terminou e 2024 e o ano só começa agora. No Brasil é assim, tudo só começa após o Carnaval. Então, com Beth Carvalho no “Volta por cima[10]”:

Levanta sacode a poeira /
da volta por cima /
Chorei /
Não procurei esconder /
Todos viram, fingiram /
Pena de mim não precisava /
Ali onde eu chorei /
Qualquer um chorava /
Dar a volta por cima que eu dei /
Quero ver quem dava /
Um homem de moral /
Não fica no chão /
Nem quer que mulher /
Lhe venha dar a mão /
Reconhece a queda /
E não desanima /
Levanta, sacode a poeira /
E dá a volta por cima /

Parafraseando Paulinho da Mocidade, puxador de samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba carioca, em seu imorredouro grito de guerra: alô Brasil, chegou a horaaaaa!, bem como Neguinho da Beija Flor, puxador de samba da escola carioca Beija Flor: alô rapaziada! Olha o Brasil aí genteeee!


 [1] “Malandro é malandro e mané é mané” de Neguinho da Beija Flor.

[2] Este artigo é (re)escrito em homenagem a Augusto Thompson.

[3] Forense, 5ª ed., 2000, capítulo 5º, pp 109-110.

[4] Id ibidem.

[5] Id ibidem.

[6][6] “Samba da minha terra” de Dorival Caymy.

[7] “Vai levando” de Caetano Veloso e Chico Buarque.

[8] “Deixa a vida me levar” de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho.

[9] “Brasil” de Cazuza.

[10] “Volta por cima” de Beth Carvalho.

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1 Comentario

  • Jbcamara@lousadacamara.adv.br
    16/02/2024, 11:04

    LGV,desde há muito ,é meu candidato a ABL.
    Cronista da cidade, da estirpe de João do Rio,de Stanislaw ,não deixa o carioquismo morrer com uma prosa inimitável.
    Viva o Rio.
    Nascido de pais cariocas na esquina de Francisco Muratori com Riachuelo ( Lapa ) certifico que LGV é tão ou mais carioca do que eu.

    Responder

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