Por Catarina Duarte
O guia turístico Victor Cerqueira, o Vitinho, de 29 anos, foi morto durante operação policial no sul da Bahia. Um mês após o caso, mãe e prima denunciam falta de respostas e suspeitam de execução por engano
A funcionária pública Luzia Cerqueira Santos, de 55 anos, tenta ser forte há cerca de um mês. “Eu confesso que penso que amanhã vai ser melhor e amanhã fica pior”, diz, sem conseguir conter o choro. Em maio, ela perdeu o filho Victor Cerqueira Santos Santana, o “Vitinho”, de 29 anos, morto durante uma operação conjunta das polícias Militar e Federal em Caraíva, no sul da Bahia. Desde então, espera por uma explicação do Estado sobre por que seu único filho foi morto.
“É muito difícil porque a gente sempre quer uma resposta e não tem. É muito triste, muito agoniante, muito dilacerante”, desabafa. Por volta das 18h do sábado, 10 de maio, Luzia ligou para o filho ao saber de uma ação policial em Caraíva. Queria saber se ele estava bem. Foram várias chamadas, todas sem resposta, marcadas por um crescente desespero. Tentando se acalmar, lembrou que às vezes o celular do guia turístico descarregava, o que poderia justificar o silêncio.
Mais tarde, às 22h, voltou a ligar, como fazia todos os dias. Victor seguia sem atender. Na madrugada do Dia das Mães, postou nas redes sociais uma foto dos pés do filho recém-nascido e um cartão que ele havia lhe dado ainda na infância. Tudo que queria naquele domingo era estar perto dele. Na manhã do dia 11, recebeu a ligação de uma sobrinha informando que Victor estava desaparecido. “Nós ficamos doidas. Eu procurando amigos dele, e os amigos também procurando. Chegou uma hora que eles não quiseram mais falar comigo. Eu acredito que já sabiam do que aconteceu, só não queriam me contar”, lembra.
Um primo de Victor foi reconhecer o corpo, que estava coberto de lama. Ao pedirem que limpassem o peito, viu a tatuagem com o nome de Luzia — a confirmação de que ele era o guia morto ali. “Eu recebi meu filho no caixão, no Dia das Mães. Isso me tirou o chão até hoje. Estou dilacerada, faltando um pedaço de mim, sem vontade de viver”, diz.
Confundido com um traficante
Vitinho morava em Caraíva há cinco anos. Trabalhava como autônomo, atuando como guia de turismo, entre outras atividades. Após o Dia das Mães, ele seguiria para o Espírito Santo, onde havia se matriculado em um curso técnico em refrigeração.
Luzia conversou com a reportagem da Ponte no dia em que a morte do filho completava 30 dias. Com o rosto inchado e um pano na mão para enxugar as lágrimas, ela usava uma camiseta com a imagem de Vitinho e a frase “Bom dia com Jesus!”, mensagem que ele dizia diariamente.
Adriana Souza, 45, prima de Victor e sua confidente, lamenta ter que voltar à rotina sem o jovem. “São 30 dias que a gente ainda não sabe. Não nos foi respondido nenhuma das questões: quem matou o Victor? Por quê? Por que um cara que não tinha antecedente criminal, não tinha passagem pela polícia, nem mandado de prisão ou envolvimento com crime, sai algemado de uma abordagem e é entregue morto?”
Testemunhas contaram à família que Victor havia deixado a pousada onde trabalhava por volta das 18h para buscar turistas na balsa que dá acesso à vila. Ao perceber uma movimentação policial, entrou com o grupo em um comércio para se proteger. Depois de um tempo, saiu sozinho para ver se estava seguro. Foi nesse momento que teria sido abordado, algemado e retirado de Caraíva. O corpo apresentava marcas de violência.
Familiares acreditam que Victor tenha sido confundido com outro homem — também chamado “Vitinho” — que seria ligado ao tráfico local. Segundo a família, câmeras de segurança da travessia do rio Caraíva teriam sido desligadas pouco antes da operação. Imagens de comércios também teriam sido apreendidas pelos agentes.
Família contesta versão policial
Victor foi baleado durante a operação conjunta das polícias Militar e Federal no dia 10 de maio. O alvo seria Ramon Oliveira Cruz, 33 anos, conhecido como “Alongado”, suposto líder de uma facção criminosa na região. De acordo com nota da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), Ramon resistiu à prisão e morreu após ser socorrido — sem especificação dos ferimentos.
Na mesma nota, a SSP-BA afirma que Victor era “segurança” de Ramon e foi morto durante o confronto. Não há detalhes sobre a dinâmica da ação nem explicações sobre como o guia turístico foi ferido. Inicialmente, a SSP-BA havia informado à imprensa que Victor morreu em via pública após ser baleado. Segundo o jornal Correio, a secretaria também afirmou que um dos mortos tinha mandado de prisão em aberto, sem esclarecer qual deles. Uma terceira pessoa foi presa.
Ainda de acordo com a SSP-BA, foram encontradas com Victor e Ramon uma pistola, um revólver, carregadores, munições e drogas. A família contesta. “Ele não gostava nem de arma de brinquedo. O Victor não participava de tiro ao alvo porque não gostava nem de pegar numa arma”, afirma Luzia.
No dia 25 de maio, o corpo de Victor foi exumado para nova perícia, a pedido do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), que instaurou um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) paralelo ao inquérito da Polícia Civil. O atestado de óbito informa que Victor morreu às 18h, em via pública, na Avenida dos Navegantes. A causa da morte: politraumatismo toráxico, choque hemorrágico e projétil de arma de fogo. Ele foi sepultado dois dias depois, no cemitério municipal de Itabela, sua cidade natal.
Três dias antes de morrer, Victor registrou um boletim de ocorrência em Porto Seguro. Relatou dificuldades para dormir e crises de ansiedade após ter sido difamado em um grupo de WhatsApp. Para a família, isso prova que não havia mandado de prisão contra ele.
Cobrança por justiça
Adriana se revolta com o silêncio das autoridades, como o secretário estadual de Segurança Pública, Marcelo Werner, e o governador Jerônimo Rodrigues (PT). “Quem vai dar conta dessa vida? O agente da lei está solto, com uma arma que pode matar outras pessoas, e ninguém fala nada?”.
A Bahia lidera, desde 2022, o ranking de mortes causadas por policiais. Em 2023, foram 1.699 óbitos, aumento de 15,8% em relação ao ano anterior, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Até agora, Luzia e Adriana não tiveram acesso a informações concretas das investigações conduzidas pela Polícia Civil ou pelo MP-BA. A Ponte questionou a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF), mas não houve resposta.
O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), o Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), o Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal e a Polícia Militar da Bahia sobre os pontos levantados pela família de Victor e sobre as investigações do caso. Também foi questionado as polícias Militar e Federal quantos policiais participaram da operação, se os agentes estão sendo investigados internamente e se eles foram afastados das atividades operacionais durante a apuração.
A SSP-BA informou, por nota, que a Polícia Civil solicitou prorrogação do inquérito e que novas diligências estão em andamento. A Polícia Militar disse que a SSP-BA é responsável por responder sobre o caso.
Os demais órgãos não responderam até a publicação desta reportagem. Caso o façam, o texto será atualizado.
Leia nota da SSP-BA na íntegra
A Secretaria da Segurança Pública informa que o caso está sendo investigado pela Polícia Civil, que solicitou prorrogação do prazo para conclusão do inquérito. Destaca também que todas as medidas de Polícia Judiciária estão sendo adotadas, visando o esclarecimento da ocorrência policial deflagrada naquele distrito. Acrescenta, por fim, que laudos complementares estão sendo finalizados e que novas diligências serão realizadas pelos investigadores.
Publicado originalmente na Ponte de Jornalismo.




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