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A Folha envelheceu mal

A Folha envelheceu mal

Por Marilene Felinto

Jornal precisa de negros em cargos de direção para ser capaz de enxergar o racismo

[RESUMO] Autora se solidariza à iniciativa de parcela de jornalistas da Folha, que encaminhou abaixo-assinado à direção do jornal questionando a publicação de artigos como o de Antonio Risério. Ela afirma que o jornal perdeu o bonde de sua época e precisa alçar negros aos postos de comando da Redação.

Leitores me disseram que hipócrita sou eu, que continuo a escrever neste jornal depois de mais uma comprovação cabal da pauta deliberadamente racista (contra negros, está evidente) aqui adotada.

Hipócrita sou eu, mas neste momento (que escrevo com sincera vontade de chorar) achei que não deveria me furtar a escrever —porque queria mostrar solidariedade aos 186 jornalistas que assinaram uma carta à direção da Folha na última quarta-feira (19), fato inédito, em protesto contra a seleção de artigos racistas que o jornal insiste em publicar.

Hipócrita sou eu, mas é preciso valorizar a atitude desse operariado que arriscou seus empregos e salários de merda nesta conjuntura econômica tão nociva aos trabalhadores (e meu choro é de raiva, não é pieguismo oportunista). O manifesto desses jornalistas é sinal de saúde, de novos tempos, uma lufada de juventude que talvez o jornal vá esconder de si mesmo, envelhecido que está, no pior sentido deste termo (de conservador e cego).

Folha envelheceu muito mal. Perdeu o bonde da época. Parece dar um passo à frente e então recuar dez passos, num jogo, numa espécie de brincadeira em que o que se perde é a sua própria credibilidade aos olhos do público (mesmo a plateia de direita, para quem o jornal é voltado).

Por acaso vai publicar a tal carta corajosa? Também não vi manifestação pública do jornal sobre a saída da intelectual negra Sueli Carneiro do conselho editorial (em outubro de 2021), motivada por outro artigo de declaração racista aqui publicado. A Folha também nunca se retratou por ter se manifestado contra as cotas para negros quando da inserção delas nos governos do PT.

Envelheceu mal. Afinal de contas, o que pretende uma empresa que mantém um posicionamento retrógrado e tão antissocial como esse, num país dos mais desiguais do mundo?

Precisava este jornal botar negros em cargos de direção, gente que enxergue sem miopia nem proposital daltonismo o que é racismo contra negros (eu disse contra negros). Precisava tirar racistas e fascistas da pauta, do secretariado de Redação, alçar negros aos cargos de editores, dos postos mais altos da administração. Mudança profunda é isso, diversidade, pluralismo. O resto é cosmética, fachada.

Sou de outros tempos aqui dentro —na minha época havia muito menos consciência da condição da negritude, da exclusão, da violência que mata negros ou quer mantê-los na mesma posição subalterna. Os únicos jornalistas negros da Redação eram dois, além da secretária de Redação e do contínuo interno. E só.

Transitei naquele universo por 12 anos e saí brigada (como brigada vivia), em novembro de 2002, na primeira eleição do PT à Presidência. Briga ideológica, política, contra a adesão à pauta do retrocesso pela qual o jornal começava a optar. Não participei das duas décadas que se seguiram, de virulência de direita, de perseguição política às esquerdas, de perda de valores, do apoio ao golpe que veio desembocar na demência autocrata que hoje governa o país.

Hipócrita sou eu, que ainda me presto a servir de isca (com esta lamúria patética) a uma pretensa ecologia de opiniões: isca, que aqui abre caminho para que a “opinião contrária”, fascista e racista, ganhe espaço apenas porque me dessem espaço agora para externar minha indignação.

Ora, a publicação de textos racistas não é trabalho a favor da informação ou do debate, é deformação, é divulgação e propaganda do ódio racial, incentivo à violência histórica e estrutural contra negros.

Ora, a hipocrisia é toda minha! Ouvi de alguém importante aqui, esses dias, que “desde que você voltou para o jornal, sempre escreveu o que quis”. E eu retruquei, com certa indignação: “Sim, quase sempre. Não esqueça do ‘quase’, daquilo que até escrevi, mas recuei de publicar por respeito a você, a nossa amizade”.

Vontade de chorar. Voltei a escrever nesta Folha em 2019 (um jornal sem rosto para mim hoje, já que não conheço ninguém, com exceção de dois ou três da minha época). Mas sei que entre a gente nova, ou quase nova, alimenta-se de esguelha, mas incessantemente, um liberalismo fascista de raiz, que vai se imiscuindo na escolha da pauta, bem na estrutura da coisa.

Em 2019, voltei pela via da amizade perdida, de um estranho e improvável resgate da herança de uma amizade —com o diretor de Redação já falecido, Otavio Frias Filho—, sem que houvesse nisso nenhuma hipocrisia. Não devo nada a ninguém. Nem mesmo quando pediram minha cabeça aqui neste jornal (ontem e hoje) e ele se recusou a me entregar aos lobos famintos.

Muito inteligente e um gênio da mídia (para o bem e para o mal), ele sabia que lobos de ocasião queria ter perto dele. Sou essa hipócrita loba de ocasião, isca patética.

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo.

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