“O que eles pretendem fazer é mudar o regime de presidencialista para parlamentarista”, denuncia Marco Aurélio Carvalho, do grupo Prerrogativas, que ofereceu pareceres de quatro juristas para subsidiar ação do governo sobre IOF na Suprema Corte.
Fundador da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia e coordenador do Grupo Prerrogativas, o advogado Marco Aurélio Carvalho, afirmou em entrevista à Fórum que a articulação entre os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com bolsonaristas para derrubar o decreto do governo Lula com mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF, abre um precedente perigoso e pode tornar o país ingovernável em pouco tempo.
“Não se pode permitir que se crie um precedente que seria muito ruim para o relacionamento independente e harmônico entre os poderes e que poderia comprometer a democracia e o Estado de Direito do país”, afirmou.
Nesta quarta-feira (2), o Prerrô ofereceu ao governo os pareceres dos juristas Pedro Serrano, Lênio Streck, Gisele Cittadino e Luiz Guilherme Arcaro Conci para subsidiar a ação movida pelo Advogado-Geral da União (AGU), Jorge Messias, e o Ministério da Fazenda, de Fernando Haddad, no Supremo Tribunal Federal (STF) que aponta a inconstitucionalidade e a usurpação de poderes na decisão da Câmara de barrar o ajuste da tarifa, que tem com o claro intuito de antecipar as eleições e “sangrar” o presidente Lula para favorecer o conchavo da terceira via em torno de Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos).
Para Carvalho, se Motta tem problemas ou quer mandar recados para o governo, ele não pode fazer isso usurpando as competências dos poderes.
“Nós estamos diante de um grave desarranjo institucional e os presidentes dos poderes precisam agir para evitar que se forme um precedente que em curto espaço de tempo pode tornar o país ingovernável, que é o precedente de usurpação de competência de um poder por outro, que compromete de forma decisiva e determinante um princípio que é fundante no estado de direito e na democracia, de qualquer país, que é o princípio da independência e da autonomia dos poderes. Congresso nacional, já capturou, enfim, atribuições do executivo com as emendas impositivas e aqui e agora quer avançar”, afirma.
O coordenador do Grupo Prerrogativas ainda ressalta o verdadeiro intuito por trás das negociatas conduzidas por Motta, que foi homenageado por empresários, banqueiros e agentes do sistema financeiro em jantar na casa de João Doria na segunda-feira (30). Em entrevista à GloboNews, o lobista do grupo Lide afirmou que “o regime parlamentarista seria mais adequado ao Brasil”.
“Na prática, o que eles pretendem fazer é mudar o regime de presidencialista para parlamentarista. Tem que ter reação. Talvez o presidente Hugo Motta não tenha percebido, talvez tenha calculado mal, mas o congresso não tem crédito acumulado com a população. Ele foi no passado parte da solução, hoje é parte dos grandes problemas do país, né? E precisa dar uma resposta à altura”, afirmou Carvalho.
Segundo ele, Messias e Haddad têm conduzido o caso com serenidade, mostrando que “não se trata de uma ação revanchista, de um ataque do executivo e ao Congresso Nacional”, mas sim da “defesa de uma competência que foi constitucionalmente atribuída a um poder e que foi usurpada por outro”.
“Nós estamos diante de uma crise gravíssima. Espero que os presidentes dos poderes estejam à altura da responsabilidade que eles têm para solucionar esse conflito. O presidente Lula tem dado demonstrações através dos seus ministros, em especial o Jorge Messias, de serenidade. Espero, enfim, que a reação do presidente da Câmara seja compatível”, concluiu.
Veja os pareceres de Pedro Serrano, Lênio Streck e Gisele Cittadino e de Luiz Guilherme Arcaro Conci.
Publicado originalmente na Revista Fórum.




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